Reverência às perguntas I

12/06/2016

Sempre fui de questionar. Às vezes para fora, destemida e desbocada. Outras vezes para dentro, em reflexão e silêncio. Eu era daquelas que sempre tinha perguntas para o professor. E minha adolescência foi uma explosão de interrogações por minha casa. Tudo que caminhou e mudou em mim e ao meu redor (e, como boa geminiana, não foi pouca coisa) foram por conta das perguntas, conscientes ou inconscientes, que fazia e faço para este vasto e louco mundo.


Sou confessa admiradora das perguntas. Sou perguntadeira assumida. Por isso me encantam as crianças e seus porquês. Os adolescentes e suas rebeldias.


Tenho todo respeito pelas respostas, que acalmam na hora certa e trazem conforto, mas é o mover das perguntas que vão fazendo a roda girar. Não tem jeito, sem perguntar não se sai do lugar. E a literatura me fascina justamente por deslocar, revirar e trazer indagações.


Sim, a literatura também traz respostas, mas não aquela cartesiana, racional, decifrável. A literatura (e a arte, a aventura, e outras experiências profundas) responde de outra maneira, de um jeito que a mente não consegue entender ou acompanhar. Uma resposta que se dá no silêncio de um olhar levantado no meio da leitura, na suspensão que há no tempo quando alguma conexão é feita, no encontrar a si mesmo, como uma peça que se encaixa no quebra-cabeça da existência.


Então, imaginem meu encantamento ao encontrar um livro de Pablo Neruda apenas com perguntas. E perguntas em formato de poesia. Perguntas retóricas, perguntas difíceis, perguntas metafísicas, perguntas belas, perguntas ingênuas, perguntas, perguntas, perguntas.


O texto não foi escrito originalmente para crianças, mas o projeto já chegou à Cosac classificado como infantil. Para mim, por sua enorme beleza, esse é um típico exemplo de que livros não têm idade, de que ilustração para criança não precisa ser “infantilizada”, de que ilustração não é só para crianças.


As crianças se identificam com certeza, porque o livro é cheio de imaginação, improbabilidades, ingenuidade, ousadia.  Já, para os adultos, pode ser um convite para voltar a fazer mais perguntas. Afinal,


“ONDE ESTÁ O MENINO QUE EU FUI?


ESTÁ DENTRO DE MIM OU SE FOI?”


O texto tem tradução de Ferreira Gullar. As ilustrações de Isidro Ferre são um mundo à parte, bem pouco óbvias, e com muito mais perguntas do que respostas e associações fáceis. São fotografias de instalações e colagens, que, ao invés de “complementar” ou “acompanhar” o texto, constroem uma proposta paralela, o que torna esse livro uma experiência de múltiplas leituras. O livro é uma edição de colecionador para os amantes de livros.


A notícia não tão boa é que, com o fechamento da Cosac Naify, você tem que correr um pouco, para achar o livro em sebos e outras fontes alternativas. Mas dá tempo. Corre que dá.


Agora espia só um pouco mais das perguntas e do livro:


QUANTAS IGREJAS TEM O CÉU?


 


ME DIGA, A ROSA ESTÁ NUA OU TEM APENAS ESSE VESTIDO?


 


COMO PERGUNTAR À PULGA QUAL SEU RECORDE DE SALTOS?


 


SE AS MOSCAS FABRICAM MEL, OFENDERÃO AS ABELHAS?


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E para você? O que te move?


Quais são suas perguntas?




[caption id="attachment_5437" align="aligncenter" width="731"]Quais são suas perguntas? Quais são suas perguntas?[/caption]

(Tem mais sobre perguntas, no Reverências às perguntas II, sobre “O  menino que perguntava”, de Ignácio de Loyola Brandão.)




LIVRO DAS PERGUNTAS

Texto de Pablo Neruda

Ilustração de Isidro Ferrer

Editora Cosac Naify