Que tal brincar de desconstruir contos de fadas?

29/06/2017

Por Padmini


 Sim, há grandes traços marcantes da personalidade humana representados nos contos de fadas – o que explica um pouco a durabilidade e o encantamento dessas histórias.


Mas não, contos de fadas não são universais ou atemporais. Pelo contrário, os contos de fadas são, como qualquer texto, marcados temporalmente e espacialmente, isto é, são produtos de um tempo histórico e, por isso, veiculam os valores desse tempo.


Por isso que, no momento atual, quando alguns valores tradicionais (como patriarcalismo e machismo) estão sendo severamente revistos, os contos de fadas em suas versões mais antigas inevitavelmente são questionados também.


Esse processo de adaptação é muito natural, próprio dos textos da cultura oral, e também muito enriquecedor! É maravilhoso ter novas versões e olhares sobre essas histórias tradicionais.


É muito interessante para leitores de todas as idades verem essas histórias desconstruídas. Por isso que gostamos de recomendar livros que descontroem ou reconstroem esse acervo cultural de todos nós.


Então, a dica de hoje são esses dois imprevisíveis livros da escritora e ilustradora Suppa.




[caption id="attachment_4953" align="aligncenter" width="799"]E o lobo mau se deu bem! E o lobo mau se deu bem![/caption]

Em O LOBO MAU SE DEU BEM, vemos claramente o estereótipo do “lobo mau” impedindo um “lobo bom” de viver a vida e ter amigos.


Em todas suas tentativas de aproximação das pessoas e seres (tais como Chapeuzinho Vermelho e três porquinhos), o pobre lobo é atacado sem nem mesmo fazer nada.


Que triste! Ele sofre o peso das generalizações e preconceitos.




[caption id="attachment_4952" align="aligncenter" width="799"]E se o lobo fosse inocente? E se o lobo fosse inocente?[/caption]

A obra é quase um livro imagem, com pouquíssimo texto. Bem leve e divertido!


Não contamos o final, mas já dá pra supor, pelo próprio título do livro, que ele não vai terminar como nas versões tradicionais dos contos de fadas.



Em E O PRÍNCIPE FOI PRO BREJO, a desconstrução é muito divertida e bastante ousada. A história começa com “O príncipe e a princesa casaram e NÃO foram felizes para sempre”.




[caption id="attachment_4951" align="aligncenter" width="737"]E o príncipe foi pro brejo… E o príncipe foi pro brejo…[/caption]

E, na verdade, dessa vez é o príncipe que não consegue ir além de certos estereótipos e padrões masculinos. Pois, depois do casamento, ele passa a não ter nada de príncipe galanteador: mostra-se insensível, não repara na esposa, não toma banho, arrota e solta pum em momentos inapropriados


Falamos que a desconstrução é ousada, já que temos que tomar cuidado para não generalizar e achar que todos os homens (ou príncipes) são assim.


Não generalizar e colocar a obra em seu espaço-tempo, com seus valores e costumes, é imprescindível para a apreciação de qualquer texto.




[caption id="attachment_4950" align="aligncenter" width="799"]Príncipe sapo! Príncipe sapo![/caption]

Neste, por exemplo, a desconstrução da idealização do príncipe torna-se mais profunda, porque mulheres e meninas vivem um momento de emancipação. E novos olhares são muito necessários!


Por fim, contos de fadas, como produtos da cultura oral, têm como grande marca a versatilidade. Então, não há tanto sentido em buscar uma “versão original” (exceto em autores como Andersen, que já pertencem à cultura escrita).


Então, divirtam-se com as várias versões dessas histórias. Comparem. Questionem. Sejam leitores do seu tempo!