LER: não é sobre palavras apenas

05/07/2018

Este texto é quase um manifesto. Uma necessidade de esclarecimento.


Quando falamos de leitura, não estamos falando simplesmente do processo de decodificação das letras, que começa na – muitas vezes penosa – alfabetização e vai até o fim da vida, passando por situações às vezes agradáveis, mas muitas vezes bem árduas, como as leituras obrigatórias da escola e do vestibular, e os contratos jurídicos de diversos tipos (com respeito às pessoas que tiverem esse gosto peculiar).


Quando falamos de livro, de incentivo à leitura, não é apenas para que as crianças se tornem cidadãos críticos, conscientes e engajados. Não estamos falando do senso comum de que ler é importante e faz bem, sem que saibamos explicar exatamente por que.


Definitivamente, quando falamos de leitura, não estamos falando de tarefas e obrigações.


Estamos falando, na verdade, de fantasia, liberdade e imaginação.


Estamos falando sobre um objeto, composto de palavras, imagens e materialidade, que é como um passaporte para os mais variados universos. Que é um representante da infância – essa que faz vibrar os sonhos, que traz aquele inconsequente otimismo que permite viver a vida com presença e inteireza, seja qual for a idade.


O livro infantil para nós é um portal mesmo. É um dos jeitos mais belos que encontramos de entrar em contato com o universo mágico e criativo.


Quando incentivamos o livro, estamos incentivando tudo isso: infância, imaginação, liberdade, sonho.


Para representar bem o que estamos dizendo vamos falar de um livro: DIREITOS DO PEQUENO LEITOR, de Patricia Auerbach e Odilon Moraes.




[caption id="attachment_4737" align="aligncenter" width="799"]Estar de cabeça pra baixo é de propósito rs Estar de cabeça pra baixo é de propósito rs[/caption]

Encontramos ali uma associação entre texto e imagem que nos mostra a mais genuína liberdade com que o pequeno leitor chega (ou pode e deveria chegar) ao livro. A criança chega ao livro sem regras, sem medo. Ela chega ao livro cheia de potências para o sonho e a imaginação. Ele chega pronta pra adentrar o portal.


Mas muitas vezes isso é quebrado por regras de “como segurar o livro”, “como cuidar do livro”, conceitos de certo e errado, obrigações de entender da maneira adequada… Pouco a pouco, na longa jornada de letramento, as pessoas podem ir entendendo que o livro é um objeto difícil, que leitura é para poucos.




[caption id="attachment_4736" align="aligncenter" width="799"]liberdade: até o lobo pode ler com a Chapeuzinho liberdade: até o lobo pode ler com a Chapeuzinho[/caption]

As palavras do livro DIREITOS DO PEQUENO LEITOR trazem essa lembrança, de que podemos adentrar como quisermos o universo mágico. As ilustrações nos contam uma narrativa também, que confirma tudo isso. Há até uma chave e uma porta. O portal está ali. Vamos deixar as crianças entrarem?


Em nossa percepção, tirar o livro do pedestal e torná-lo um brinquedo para a criança é um dos melhores caminhos para que essa essência da imaginação seja mantida, e para que as pessoas continuem seu contato com a leitura por toda a vida.


Além disso, o livro infantil para nós também é um portal para o afeto. Principalmente na primeira infância, quando leitura pode ser quase sinônimo de colo e carinho.


Para continuar falando de liberdade e imaginação, mas também falar de afeto, mencionamos BRINCAR DE LIVRO, de Emília Nunes e Anna Cunha, que vai ser lançado no 2 semestre (mas que nós já tivemos acesso hehe – é esse da foto do início do texto).




[caption id="attachment_4738" align="aligncenter" width="799"]A guarda do livro Brincar de livro A guarda do livro Brincar de livro[/caption]

Trata-se de um livro imagem (só tem ilustrações) que vem nos lembrar de que há muitas maneiras de ler. Um menino pega um livro que a mãe estava lendo e brinca/lê com ele das mais diversas maneiras. Um livro pode ser um pássaro, uma montanha, em muitas brincadeiras de faz de conta. Pode-se até mesmo brincar de livro decodificando letras e imagens, como muitos dos leitores habituais – mas este não é o único caminho.


BRINCAR DE LIVRO nos lembra sobre o afeto, pois é lá que o menino termina, no colo da mãe, brincando de ler e de amar.


– Esses dois livros foram apresentados em uma das mesas do Salão FNLIJ, cujo papo nos rendeu as reflexões para esse texto.




[caption id="attachment_4739" align="aligncenter" width="799"]As várias maneiras de ler As várias maneiras de ler[/caption]

Patrícia falou sobre como ler é liberdade, e sobre como a literatura fluida, leve e prazerosa, cheia daquele frescor da primeira infância, muitas vezes é perdida com a sacralização da letra.


Emilia vem nos lembrar de como o olhar, o cantar, o ninar, o imaginar, antecedem a letra – o que não retira a importância desta, apenas não a superestima. Ela fala também da leitura como oportunidade de vínculo e de como somos iniciantes como leitores mediadores de leitura.



Se te parece contraditório nós que defendemos tanto o livro tirarmos a importância dada à letra, não se engane.


É bem congruente nosso pensamento e sentimento.


Quanto mais liberdade e afeto a criança tiver na leitura, maiores são as chances de seus vínculos e amor pelos livros serem efetivamente duradouros.




[caption id="attachment_4740" align="alignnone" width="799"]Leiamos como quisermos Leiamos como quisermos[/caption]