Política é coisa de criança?

26/10/2018

Na quarta-feira, 24-10, fomos a um bate-papo guiado por Rosa Walcacer e Anna Luiza Guimarães –  na Casa da Rosinha, em Laranjeiras, RJ –  cujo ponto de partida era o o seguinte questionamento:

Política é coisa de criança?

Em tempos em que se defendem ideias como a da “escola sem partido”, muita gente poderia responder que não.

No entanto, esse “não” só faz algum sentido se considerarmos a política partidária e não a política em sentido amplo. Afinal, política está em tudo. Onde a criança acorda, o que come, a escola que frequenta, o caminho que faz para a escola…toda a sua vida é pautada a partir de questões políticas.

Além disso, se em período anterior já vivemos certa apatia e indiferença em relação à política, hoje, principalmente neste período de eleição, a política tomou conta do dia a dia dxs brasileirxs. Nos jornais, no café da manhã, em qualquer grupo que se reúne, inevitavelmente o assunto é esse: política. E onde está a criança?

Está lá escutando tudo.

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E, tendo em vista o clima de disputas, ódio e medo que se instaurou nessa eleição, com certeza as crianças também estão lá sentindo tudo em primeiríssima mão. Pais, mães e professorxs estão sendo obrigadxs a lidar com situações bem complicadas diante de perguntas e comentários das crianças, como: “o pai do meu amigo é burro, vota em corrupto”, “minha mãe pode ser presa, se o candidato x ganhar”, “eu não posso ir mais na casa do meu primo, porque meu pai brigou com meu tio por causa de política”.

Então, principalmente agora, nesse tão acirrado momento eleitoral, como afirmar que política não é coisa de criança?

A reflexão que queremos trazer neste texto é sobre o cuidado necessário para não transparecer em excesso nossos sentimentos, apreensões, medos e raivas diante da criança, sem que ela tenha um respaldo de conhecimento para entender o que se passa. É preciso que a criança receba uma abordagem mais objetiva diante disso tudo.

Como seria isso?

Primeiramente, é necessário lembrar que não vivemos uma guerra – mas uma campanha eleitoral. Não vivemos uma campanha eleitoral entre pessoas, no estilo herói e vilão – mas entre posicionamentos e ideologias diante do mundo e do nosso país. Não estamos em um jogo de futebol – mas em uma democracia, onde não há exatamente perdedores e ganhadores; afinal, faz parte do processo democrático uma “derrota” temporária, em que, mesmo assim, é possível manter o seu posicionamento, por meio do direito à oposição, que é saudável ao incitar a reflexão e o diálogo.

Muito idealizado todo esse papo?

Talvez. Mas talvez todo esse papo ainda seja ideia e não realidade justamente porque nos esquecemos de conversar sobre política com as crianças que são hoje adultos.

Esse diálogo é necessário a fim de que as crianças tenham instrumentos para construir uma realidade diferente. E para que elas não se afetem pela onda de terror e guerra que se instaurou entre os adultos.

A boa notícia é que livros podem ajudar! Há um bom número de livros informativos para crianças que tratam de maneira lúdica o processo político.

Aqui vamos falar brevemente de dois deles.

Eleição dos bichos Eleição dos bichos

Um é a ELEIÇÃO DOS BICHOS, um livro bem divertido que conta sobre um processo democrático que pode tirar finalmente o leão de seu posto de rei da selva. A história é bem divertida mesmo, com os candidatos sendo o rei, a cobra, a macaca e a preguiça.

Ao fim do livro e das eleições, encontramos esta reflexão: “Não gostou do resultado? Eleições são assim mesmo….”

Não gostou do resultado? Não gostou do resultado?

Essa lembrança é fundamental em um momento como esse! É preciso naturalizar essa suposta perda do processo democrático. E erradicar a ideia de heróis e vilãos. Política não é feita por uma pessoa só e nem de uma só vez. Provavelmente apenas um mandato não é suficiente para colocar em prática tudo o que um candidato acredita. Não por acaso neste livro quem ganha é a preguiça, que defende justamente um plano de governo de longo prazo.

Quem manda aqui? Quem manda aqui?

Em QUEM MANDA AQUI? de maneira leve vamos vendo diversas formas de governar e gerir o poder – o que está para além de governos políticos. Lembrem-se que há relações de poder onde quer que a criança vá, inclusive na escola e em casa.

Focando no processo democrático, há uma ótima parte da obra que fala de uma prefeita que não era perfeita. Mas que tinha valor justamente porque foi escolhida. A solução diante de seus erros é ficar atentx e escolher melhor da próxima vez.

A prefeita que não era prefeita A prefeita que não era prefeita

Diante de todas as leituras e reflexões feitas no encontro de quarta-feira, nossa percepção foi de que política é para todxs, e que o diálogo começa em nós adultxgvgs, e inclui com certeza as crianças.

Que possamos refletir e CONVERSAR para construirmos uma política mais pacífica, consciente e participativa; e menos passional, apressada e ansiosa.