Papo real sobre mediação de leitura

25/09/2019

Apesar de sabermos os benefícios da leitura na infância, e principalmente da leitura feita em família, ainda temos muitas dificuldades para que a leitura literária se torne um hábito na maioria das casas brasileiras.

Para refletir sobre as dificuldades reais da mediação de leitura em casa, vamos conversar com duas mulheres, mães, que têm práticas muito inspiradoras de leitura em casa. Elas compartilham seu encantamento e suas experiências em canais lindíssimos do Instagram.

Elas são Carol Braga, do @conversadequintal, e Nedjma Brandão, do @contaoutravez

A ideia dessa entrevista é dar voz às mães e pais e suas dificuldades.

Então, formulamos frases que escutamos muitos adultos dizerem.

E pedimos para Carol e Nedjma responderem.

O que vocês, Carol e Nedjma, diriam para esses pais?

-
“Realmente, minha rotina é muito corrida. Não tenho tempo de ler antes o que minha filha vai ler, depois ainda ler junto com ela, conversar sobre a obra. Imagina se ela pedir isso todo dia!”

(Nedjma)

Sabe quando a gente se programa pra oferecer aquele passeio inesquecível pra criança? Quando a gente se propõe a planejar os mínimos detalhes, começando pela hora exata da partida, o trajeto a ser percorrido, o tempo preciso de permanência, tendo em mãos tudo o que possa ser pedido, ou usado, pra impedir que qualquer coisa atrapalhe a melhor experiência durante os momentos em que estaremos juntos? Só que então... tudo vira de pernas pro ar, já na saída, e aquilo que foi planejado vai se transformando. Os horários não são mais os mesmos, o tempo (interno e externo) também não, os humores vão oscilando e aquilo que antes estava extremamente formatado vai sendo delineado de outras formas, ganhando outras cores, assumindo outras perspectivas.

Pois é... geralmente a gente quer “arquitetar" até os momentos de leitura nos mínimos detalhes e os coloca na lista dos muitos compromissos diários que precisamos cumprir, e aquilo que poderia ser (e acredite: é!) tão especial passa a ser evitado, afinal de contas, é mais uma “tarefa". Achar um espaço pro desejo de compartilhar, vislumbrar o sentido de ler com a criança e não apenas “para" ela, fazendo pequenas entregas, dispondo-se às surpresas do mergulho, reencontrando-se com o lúdico (“sem outro objetivo que o próprio prazer de fazê-lo”), faz toda diferença. Claro que reconhecer e respeitar os nossos limites é importante, mas que tal descobrirmos mais possibilidades? Vivo dizendo pra mim mesma: permita-se!

--
“Durante a leitura, eu tenho que ser fiel ao livro e ler direto sem pausas? Ou posso interferir, falar da ilustração, mudar um pouco o texto? Acho que quando faço essas intervenções, minha filha se entretém mais”

(Carol)

A primeira coisa que é importante saber antes de começar a ler um livro para uma criança é que essa ação é uma grande oportunidade de estar junto dela e criar vínculos. Ler com a criança e não apenas para ela. Saber por que lemos nos ajuda a entender o que fazer durante e após a leitura. E se entendermos que ler é um ato de amor, a principal regra é que... não existe regra! Isso mesmo, não existe certo ou errado na hora de ler com uma criança. Existe sim, aquele jeito que te deixa à vontade, seguro e, sobretudo, que deixa adulto e criança felizes durante a leitura. No livro “Direitos do Pequeno Leitor”, os autores Patricia Auerbach e Odilon Moraes, fazem um manifesto que defende justamente essa ideia: “uma leitura livre de amarras e obrigações”.

mediação de leitura - ler com crianças - livro infantil

Portanto, se durante a leitura criança sentir necessidade de conversar, pare e converse sem culpa. Se quiserem se demorar em alguma ilustração, demorem. Se quiserem ler a história de trás pra frente, leiam. Façam pausas, respirem e suspirem juntos. Esse é um momento de conexão entre o mediador e a criança. Fazer interferências não é proibido; pelo contrário, essa interferência (que chamamos de mediação) pode ser positiva. Cuide apenas para que, durante essas interferências, você não modifique demais o texto a ponto de transformá-lo em outra história. Não troque palavras por outras, por exemplo. E também não precisa parar para explicar palavras supostamente difíceis. Acredite na capacidade de entendimento das crianças, elas são capazes de interpretar e lidar com textos que podem parecer difíceis e complexos ao nosso olhar. Dentro do contexto da história, a criança acessa seu repertório e, se não entender, perguntará. O mais importante é: durante a leitura, divirta-se tanto quanto a criança!

--
“Nunca sei se falo alguma coisa antes ou depois de ler. Será, por exemplo, que falo sobre os autores, o contexto do livro? Tento puxar uma conversa sobre o tema do livro?”

(Nedjma)

Depende, sabe por quê? Falar sobre os autores, o contexto do livro, curiosidades sobre o texto, as ilustrações, o formato, as sensações causadas pela textura da capa, das folhas internas, entre tantas outras coisas, são possibilidades de interação maravilhosas e podem acontecer antes, durante ou depois da leitura.

Um bom indicativo de qual caminho percorrer, se o do silêncio ou o da fala, é a observação. Estar atento aos sinais dados pelos gestos, olhares, toques, pois muitas vezes basta apenas o nome do livro para iniciar-se a leitura. Lembro de quando um dos meus filhos, que tinha pouco mais de um ano, falava “Bábaio” e abraçava meus joelhos. Essa era a “senha” para embarcarmos nas aventuras do “Bárbaro", de Renato Moriconi, um dos livros que mais lê (e lemos juntos) até hoje (lá se vão seis anos!).

Quando percebermos os olhinhos ávidos por detalhes, aproveitemos. Quando não, respeitemos.

Já paramos para nos questionar se de fato queremos compartilhar, dialogar (e neste ato inclui-se o saber ouvir) ou se apenas (e se sim, por quê?) queremos “educar", informar, “moralizar" com a literatura?

--
 “A competição com a leitura está muito difícil. Meu filho sempre vai preferir Netflix, Youtube, joguinhos. Se eu der um livro vai ser forçado, tenho medo de ele se afastar”

Gosto sempre de fazer uma analogia com a introdução alimentar para falar sobre introdução literária. Quando vamos oferecer um alimento para a criança pela primeira vez, o que fazemos? Vamos ao mercado, selecionamos as melhores frutas e verduras (de preferência orgânicos), lavamos, esterilizamos tudo (preparamos até a máquina fotográfica pra registrar esse momento tão importante) e, finalmente, levamos a colherinha na boca da criança. E nessa hora o que acontece? A criança estranha o alimento, cospe, faz careta. Nem sempre gosta do que lhe foi ofertado, assim de primeira. Mas insistimos, oferecemos o mesmo alimento de outras maneiras: cozido, amassado, cortado. Isso tudo porque entendemos que se alimentar bem é importante para o seu desenvolvimento, certo? Mesmo com todo esse cuidado, quando a criança cresce, se deixarmos que ela escolha entre um doce ou uma verdura, por exemplo, obviamente (salvo exceções) que ela vai sempre preferir o doce. E cabe ao adulto responsável cuidar para que esta criança encontre o equilíbrio, oferecendo todo tipo de alimento.

Na relação livro e tecnologia acontece o mesmo, com a diferença que, no caso da alimentação, não deixamos de oferecer alimentos mais saudáveis a ela com medo que se “afaste” da comida. Não precisamos cortar a tecnologia da vida das crianças, até porque isso é impossível hoje em dia, mas encontrar um equilíbrio e ofertar “produtos” de qualidade. É necessário participar da vida digital da criança também. Assim como comer uma guloseima de vez em quando não faz tão mal a ninguém, assistir Netflix ou jogar joguinhos de celular vez ou outra, também não. Tudo depende DO QUE priorizamos e da forma COMO apresentamos. Se a leitura for uma prioridade para você, use seu poder de sedução e sua criatividade para fazer com que o livro seja tão interessante quanto os joguinhos. Espalhe livros pela casa toda. Aproveite um recurso como o do Bamboleio, que une leitura ao digital. Compartilhe seu entusiasmo ao estar com um livro na mão. Ler é exemplo e leitura contagia.

--
“Meu filho já aprendeu a ler. Acho que agora ele tem que ler sozinho. Parece para mim que é preguiça dele ainda ficar me pedindo pra ler”

(Nedjma)

Imaginemos a seguinte situação: Você caminha por um bosque e em seu colo está uma criança. Para ela você aponta as diversas árvores, se aproxima de cada uma para que as toque e sinta as diferentes cores e texturas. A criança as abraça, se encanta, seu olhar se expande, seus pés se firmam no chão e com seu apoio ela ergue o olhar que alcança o céu por entre as copas. A caminhada prossegue, ela já não está em seu colo, estão de mãos dadas. Enquanto vivenciam os variados cheiros, conversam sobre cada um deles. De repente você nota que ela soltou de sua mão e caminha alguns passos à frente, mas enquanto narra os desafios que está encontrando para superar os altos e baixos das trilhas que percorrem, vez ou outra, olha para trás, e reduz o passo para que você a alcance. Você percebe que há o receio do novo, mas também a vontade de te ter ao lado na travessia. O que você faz? A encoraja a prosseguir, mostrando o quanto pode e deve caminhar, pois apoio não lhe faltará? Ou lhe diz que é melhor parar por aí se, por si só, não quer seguir?

literatura infantil

Então... a criança quer apenas manter o vínculo, continuar a nutrir-se afetivamente das leituras compartilhadas. Para que nos privarmos disto?

Minha filha, que já lê com autonomia, completará 10 anos em breve (o tempo tem asas...), me surpreendeu com a seguinte fala: “Mãe, gosto de ler... mas é sua voz que embala meus sonhos!”. A abracei e disse: “Enquanto eu tiver voz, lerei com você!”.

Leiamos!

--
 “Sinto que a relação sempre vai ser vertical. Eu me sinto chato, parece que estou impondo a leitura como uma tarefa. Vem filha, vamos ler, enquanto ela está lá brincando de outra coisa. Como faço para que o interessa venha dela e não de mim? Devo esperar que ela queira?”

(Carol)

Não nascemos sabendo amar os livros, isso nos é ensinado. Da mesma forma que oferecemos comida (da melhor qualidade) para que a criança aprenda a comer, é preciso oferecer livros (também da melhor qualidade) para que ela aprenda a gostar de ler. Obviamente que você não fará isso durante uma brincadeira em que ela está super envolvida. Mas já pensou que convidá-la à leitura em outros momentos repercute tão bem quanto "brincar": brincar de livro! Pensar em uma atividade de transição e transformar o momento de leitura em algo prazeroso e não imposto. Na medida em que sentem o quanto esse ato e o objeto livro são importantes pra nós, a imposição vira curiosidade. Crianças, quase sempre, se interessam pelas ações dos adultos.

Sejamos exemplo!

--

Conheça mais da Nedjma, em sua rede social. O Conta outra vez é um perfil do Instagram cativante: com sua voz tão especial, Nedjma lê trechos de livros e faz resenhas sensíveis e repletas de beleza nas legendas.

nedjma brandão - conta outra vez

 

Conheça mais da Carol, em sua rede social, e no site. O Conversa de Quintal é um espaço de reflexão e formação de pais, professores e amantes da literatura para a infância, da educação pela criatividade, da natureza e das artes.

 

carol-braga-conversa-de-quintal

 

Para ampliar o seu acervo de leitura, assine o Bamboleio - uma biblioteca e livraria digital de literatura infantil. Tenha acesso integral a muitos livros de qualidade, e material de apoio para a mediação de leitura.

Baixe aqui

Assine aqui

avatar_bamboleio-app-11