O que vem nos contar a ancestralidade?

18/09/2017

“Tainá sabia para onde deveria ir, mas era bom seguirem juntos”


“Essa é a nossa história, Tainá! Não desista dela!”




[caption id="attachment_4883" align="aligncenter" width="799"]A neta de Anita A neta de Anita[/caption]

Tainá é uma menina feita de água, mas capaz de entender a linguagem das pedras; sua história nos é apresentada em um conto entre peles e cabelos livres, ancestralidade, oralidade e escrita.


Tainá é um rio, uma flor, uma força. Uma voz, acima de tudo, e este livro é sua expressão.


Mas o próprio título do livro já prenuncia o maior segredo da menina: ela é neta de Anita. Sua história, sua ancestralidade, seu lugar vêm antes, inclusive, do seu nome.




[caption id="attachment_4882" align="aligncenter" width="799"]Tainá e seu mundo azul Tainá e seu mundo azul[/caption]

Tainá não está só. Ela é a neta de Anita, tataraneta de Tiana, filha do sol, membro de uma comunidade, amiga do cachorro Estrela e da escritora que lhe ensina.


Caminhamos pelo livro percebendo o quanto somos feitos de trocas e partilhas. Desde a fonte, onde Tainá vai todos os dias para sentir e ouvir as águas, que, em contrapartida, jorram abundantes e cheias de vida. Até as trocas mais duras, que doem, mas proporcionam crescimento, como no dia em que ela ouve a vizinhança cochichar, em tom provavelmente preconceituoso, sobre a cor de sua pele: negra, como a escuridão de seus olhos.


Neste dia, a menina, que não pode ver com os olhos, questiona-se sobre sua aparência e a avó Anita lhe conta (em uma lindíssima história dentro da história, que, aliás, por si só já poderia se tornar um livro) sobre a origem da pele negra. Nesse momento, Tainá aprende que homens e mulheres podem ser como as águas que rompem as pedras, em busca de liberdade.




[caption id="attachment_4881" align="aligncenter" width="799"]Histórias ancestrais Histórias ancestrais[/caption]

Por meio do texto extremamente sensível de Anderson de Oliveira e das ilustrações tão vívidas de Alexandre Rampazo, mergulhamos no mundo interior de Tainá, feito de sombras e imaginação azul, como as fitas de cetim que colorem as tranças do seu cabelo crespo.


“A neta de Anita” tem um cuidado estético tão incrível, com tantos detalhes de sensibilidade e cuidado, que brinca com nossos sentidos, permitindo-nos entrar nesse universo tão peculiar de uma menina negra e cega, sem senti-la pequena ou incapaz, mas pelo contrário percebendo a sua grandeza e a nobreza de sua história. A obra é uma ode ao que não pode ser visto, mas sentido, imaginado e experienciado.




[caption id="attachment_4880" align="aligncenter" width="799"]Tranças de cetim Tranças de cetim[/caption]

É um chamado aos Filhos do Sol para que retomem ou se firmem na grandeza de sua origem. Para que todos nós percebamos que a vida pode ser permissiva, que as limitações podem ser simplesmente fruto de um ponto de vista limitado.


Este é um livro para ser lido com calma, com todos os sentidos, com pausas para conversas e reflexões.


Sim, leiam juntos, para entender esse poder da união, que vem nos contar a ancestralidade.