O que a infância tem de selvagem?

19/02/2019

O que há de infância nos livros infantis?

Vocês já repararam que em nosso conteúdo muitas vezes usamos o termo “livros para a infância”, em vez de “literatura infantil”?

Para quem não sabe, essa é uma tentativa de que o adjetivo “infantil” não pareça indicar uma literatura menor do que a – dita - “adulta”. E também essa opção de nomenclatura traz embutida a ideia de infância como uma maneira de viver e enxergar a vida que ultrapassa a idade. Afinal, há infância dentro de todas as pessoas, em crianças e adultos.

Também gostamos de brincar com as preposições. Então, dizemos que essa literatura, além de ser “PARA a infância”, também é “DE infância”-  ou seja, está repleta da essência desse modo de viver.

A partir dessa brincadeira com a língua e os nomes, usamos os livros infantis como objeto de estudo para refletir sobre o que é essa infância que tanto buscamos, e de que tanto o mundo contemporâneo tenta nos privar.

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A pergunta que nos fazemos é:

O QUE OS LIVROS INFANTIS NOS CONTAM SOBRE ESSE MODO DE VIVER A VIDA?

Hoje, por exemplo, trazemos uma reflexão tirada de três livros que dialogam sobre o mesmo tema: o aspecto selvagem da infância.

Começamos pelo livro SELVAGEM, de Emily Hughes, que traz a história de uma menina criada na selva que, ao ser levada para viver com uma família, não se adapta e fica muito infeliz. Ela não consegue ser domada pelos adultos e acaba voltando para viver livremente com os animais.

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O livro SR. TIGRE SOLTO NA SELVA conta a história de um tigre que não aguenta mais a formalidade da vida social e quer se soltar, ser mais divertido e livre. Então ele resolve fazer coisas tidas como selvagem: ficar de quatro, tirar a roupa e ir morar na selva. O irônico no texto é justamente o fato de isso ser o natural de um tigre - só que aos olhos dos padrões sociais é tido como selvagem.

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Por fim, o livro SELVAGEM, de Roger Mello, traz uma história em imagens de um caçador, que coloca a foto de um tigre em sua sala. Esse tigre consegue fugir das prisões do porta-retrato, se liberta e ainda prende aquele que tentou ser seu dono.

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Dos significados da palavra SELVAGEM, destacamos o caráter de “indomado” e de “sem controle ou regras” (retirados do dicionário online MICHAELIS). E todo adulto em sua relação com a criança acaba enfrentando um embate por conta disso. A criança não se adapta ao formato escolar, desobedece em casa, não quer dormir na hora que mandamos...São muitas as tentativas de domar, e muitas as tentativas de desobedecer.

Claro que compreendemos a necessidade de ensinar à criança a ordem e os limites, necessários à vida social. Claro que entendemos a necessidade de aprendizado e adequação. Mas nos perguntamos também se essa selvageria natural da criança também não tem algo a nos ensinar. A gente questiona se muito da rebeldia dos adolescentes não vem de uma adestração excessiva na infância. E se muitas das angústias e inabilidades dos adultos em serem espontâneos e felizes não vêm do afastamento desse modo natural de viver.

Será que não é a criança que tem mais a nos ensinar?

O que ganharíamos nós adultos se saíssemos da postura de agentes ensinadores e nos permitíssemos ser selvagens com a criança?

Que tal brincar com ela? Comer com a mão? Ir dormir somente quando o sono vier? Nadar pelado (se isso for possível)? E tantas outras “selvagerias” que podemos brincar de explorar, dentro dos limites da segurança e da aceitação social (se isso for necessário)?

Acreditamos que para ser autêntico – e ser autêntico significa estar em comunhão com o que somos de verdade – é preciso uma dose de selvageria. Uma ousadia para questionar e duvidar. Uma coragem de ir além, para seguir as vontades de dentro, e não as impostas de fora.

O objetivo deste texto não é trazer respostas sobre como conciliar a abertura para essas vivências selvagens e o aprendizado da vida social. O objetivo deste texto é te instigar.

Por exemplo, lembre-se agora da felicidade e relaxamento que você sente quando ninguém está te vendo, quando você pode sentar bem relaxado, comer como quiser, fazer caretas, dançar, cantar no chuveiro.

A criança precisa ter espaço para viver isso também. Senão, seu ser mais íntimo sente que não tem espaço no mundo. E com isso ela pode se tornar uma pessoa com dificuldade de encontrar seu lugar, uma pessoa que não sabe tomar decisões, que sabe apenas obedecer.

A selvageria tem beleza.

É isso que defendemos. Ela tem um risco sim. Mas todos os caminhos têm, por mais que nossos controles acreditem poder evitá-los.

Ser selvagem é sobre confiar na potência da vida. É sobre confiar na grandeza da criança como ela é. É sobre abrir-se para que essa infância tão pulsante das crianças nos ensine.

Quem arrisca?

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Por Padmini

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