Livro: objeto solidário

12/07/2016

Esta é uma história que começa com “Era uma vez…”, mas que vai muito além do já conhecido e do esperado em narrativas tradicionais para crianças. Muito me encanta essa configuração da literatura infantil como gênero literário que consagra e aperfeiçoa a tríade texto, ilustração e projeto gráfico. Fala-se aqui da conformação de um gênero que tem abusado de criatividade e beleza, em edições caprichadas e que valorizam a inteligência e o senso estético das crianças. Um passeio por este livro pode ajudar a entender um pouco mais da proposta desse gênero e das potencialidades da integração de linguagens trazidas nesse suporte, que tornam impossível a leitura solitária de qualquer uma de suas partes. O livro é aqui, mais do que nunca, um objeto integral.



HISTÓRIA DE UMA LINHA:


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O “Era uma vez…” do início até poderia indicar algum resquício de tradicionalidade. Mas logo no início essa expectativa já é quebrada, afinal não estamos falando de uma linha reta e comportada. Nossa heroína é “desalinhada”; é curiosa, corajosa e destemida.


Em letra cursiva, o próprio fio da linha é quem escreve: “Era uma vez uma linha muito desalinhada…”, e pelas páginas seguintes esse fio, em tom de azul, segue pelas ilustrações na página branca.


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Inquieta e curiosa, a linha começa fazendo garranchos e rabiscando um palavrão no caderno, na sala de aula. Seu lugar não é ali e sim o pátio das brincadeiras e depois a rua e todas as descobertas. Seguindo o fio da linha azul, a cada página vamos como leitores descobrindo o mundo e suas novidades. Como na vida, não há pausas: o fio azul segue, destemido. O formato alongado do livro dá ênfase a essa ideia de continuidade e fluidez. Nesse grande passeio, o projeto gráfico complementa a dinâmica e o movimento da aventura da linha pela cidade. Em certo ponto, quando a linha vira linha telefônica, é preciso virar o livro, pois a ilustração de página dupla muda o sentido e se verticaliza nas páginas pares e ímpares. Em outro momento, temos um pôster, com as páginas que se abrem, dando um gigante panorama da cidade. A inclusão da temática no projeto gráfico se completa, enfim, com a textura de tecido da capa.


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É de se admirar como tudo comunica na obra. Em projetos de livro como esse o folhear das páginas se torna uma experiência também integral. Estamos diante de uma narrativa que fala por meio da multimodalidade. A literatura infantil, assim, não comporta apenas palavras. E é essa a grande beleza de sua proposição.


As crianças, com sua sede de vida, se encantam com certeza com essa beleza. E, como sempre, não só elas, mas outras pessoas, de idades distintas, que se identificam com esse gênero tão bonito e livre.




HISTÓRIA DE UMA LINHA

Texto de Silvana Beraldo Massera

Ilustrações de Silvia Amstalden

Projeto gráfico de Rosana Martinelli

Editora Quatro Cantos