Ler é uma brincadeira entre adulto e criança

24/01/2019

LER É UMA BRINCADEIRA ENTRE ADULTO E CRIANÇA

O que nos motiva na leitura de livros para a infância não é o resultado que essa prática pode trazer. Por isso, pode ser mais difícil você encontrar aqui argumentos de por que ler com sua filha ou filho, contando possíveis ganhos cognitivos, emocionais ou comportamentais desta prática.

O que sempre nos motivou foi a própria beleza da leitura, o prazer que a experiência estética de livros para a infância proporciona. Então, nosso foco na leitura e mediação de livros infantis está no momento presente, e não nos efeitos e “benefícios” futuros. Por mais que às vezes tenhamos feito especiais de livros divididos por tema, por mais que reconheçamos (e não neguemos) o uso utilitário que podemos fazer de algumas obras, nosso foco sempre foi o viés estético.

E tudo isso tem muito a ver com o modo de a criança se relacionar com o mundo. Criança gosta ou não gosta. Ela é movida pelo prazer. E também por isso é que muitas iniciativas escolares, que apostam na obrigação para a prática da leitura, fracassam.

No entanto, hoje vamos falar sim de um benefício futuro.

E olha que interessante ironia: vamos falar que a leitura com foco no presente - essa leitura feita sem expectativas - pode ter um ganho enorme no desenvolvimento da criança e no seu futuro.

Um dos presentes do ano passado foi a descoberta do livro “Amar e brincar – aspectos esquecidos do humano” de Maturana e Verden-Zoller, em que os autores defendem a importância de uma relação materno-infantil vivida no brincar.

(Fazemos a observação de que “materno” aqui designa uma relação de cuidado com a criança, ou seja, o termo materno pode servir para uma mulher ou homem)

Leiam, simplesmente leiam este livro!

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Muitas vezes, nós adultos acabamos interagindo com as crianças pensando nas consequências da ação. Queremos educá-las, ensiná-las. E assim vivemos o presente pensando no futuro. Isso é uma decorrência de nossa sociedade tão focada em produtividade, em que até mesmo comer e dormir são feitos pensando nos resultados e não como necessidades naturais ( por exemplo: comer para emagrecer, dormir para recuperar a energia pro trabalho...).

Acontece que a criança necessita muito do brincar, e não apenas com crianças, mas também com os adultos que lhe cuidam, pois este é o único modo de interação em que ela é aceita por completo.  A criança precisa dessa aceitação para construir um Eu sólido, capaz de respeitar a si e ao outro.

O brincar para os autores de “Amar e brincar” está ligado a uma “intimidade corporal baseada na total confiança e aceitação mútuas, e não no controle e na exigência”. (pág. 16). O brincar é simples. É natural. É quando ocorre aceitação máxima de si, do outro e do momento presente.

Para Maturana, “meninos e meninas devem crescer na biologia do amor, e não na biologia da exigência e da obediência” (pág. 20).

E para Gerda, “O desenvolvimento de uma criança – tanto como ser biológico quanto como ser social – necessita do contato recorrente com a mãe, em total aceitação no presente” (pág. 142).

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Mas como podemos relacionar tudo isso com a leitura com crianças?

Primeiramente, defendemos que ler é um lugar de encontro entre adultos e crianças. Ler juntos livros para a infância é uma forma de mães e pais estarem com suas filhas e filhos, conversando em uma linguagem única, que dialoga com a infância presente nos dois.

Muitos adultos desaprendem a brincar. Muitos adultos não sabem como ter relações não verticais com as crianças. Então, para esses pais, os livros para a infância são uma oportunidade poderosíssima. Uma oportunidade de estarem juntos, de compartilharem mundos e existências.

Só que, como ainda temos uma visão muito educativa sobre as crianças, os pais podem usar a potência desse momento para ensinar algo, para dialogar sobre algo, e para tantos outros fins.

Todas essas finalidades na leitura compartilhada podem existir, mas não podem ser maioria ou prioridade. Porque o que a criança mais precisa é de brincadeira, inclusive na relação com adultos.

Então, nossa dica é que você leve a leitura com crianças como uma brincadeira!

Esteja em plena aceitação de sua criança como ela é no exato instante da leitura. Riam ou chorem juntos, se abracem, se divirtam. Seja criança com ela!

Brinquem! Em toda a potência que essa palavra representa.

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Bibliografia:

MATURANA, Humberto; VERDEN-ZOLLER, Gerda. Amar e brincar: aspectos esquecidos do humano. São Paulo: Palas Athena, 2004.

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Por Padmini

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