Homoafetividade: dois papais

20/06/2016

(Esse é um segundo post em que falo sobre representação homoafetiva na Literatura. Para olhar o primeiro texto, clique aqui)


OLÍVIA TEM DOIS PAPAIS traz a história de uma menina, bem livre em sua infância, em uma tarde em família. O livro é um passeio por suas brincadeiras e afetos, em uma tarde em que ela está em casa com os pais trabalhando, e sem nenhuma outra criança. Olívia é uma menina esperta e bem segura de si. Tem a habilidade de usar as palavras a seu favor. Usa a palavra “encantador”, por exemplo, quando quer fazer um elogio para o pai, e sabe muito bem o quanto ele gosta de ouvir isso. Diz “óbvio” para representar sua certeza. “Entendiada” para convencer o pai a brincar com ela. E por aí vai.


Olívia é bem mandona. Vai usando as palavras e seu jeito meigo para ir satisfazendo suas vontades de criança. Essas que toda criança tem, de brincar e ter companhia, e que ás vezes não vão bem com a palavra “esperar”. Quem convive com criança sabe: às vezes um minutinho sem fazer nada e já estão “entediadas”.


Olívia é uma criança como muitas outras. E, apenas depois de um tempo de leitura, é que descobrimos que Olívia tem dois papais. E vamos vendo, além de suas brincadeiras, as dificuldades dos pais em ocupar papéis e funções que na sociedade são, em grande parte, delegadas para mulheres (como fazer penteado no cabelo da filha e brincar de boneca), assim como breves relatos do preconceito que podem sofrer por configurarem uma família não tradicional: “(o Lucas) gosta de me provocar dizendo que eu não tenho mãe”.


O livro é sobre uma família. Fica bem claro isso. Com seus erros e acertos. Dificuldades e facilidades. Não é uma história sobre homoafetividade apenas. Trata-se de uma história sobre Olívia, sobre o seu jeito de ser criança, sobre sua forma de utilizar as palavras e de se relacionar e viver. O fato de os pais serem um casal homossexual é para Olívia muito natural. E torna-se fluido também na história.


O que se ressalta no livro é o que todas as famílias têm em comum: o amor.


E que é bem grande entre eles.



OBSERVAÇÃO 1


No entanto, quero acrescentar também umas impressões que partem um pouco mais de minha subjetividade. Que afetaram a mim, como leitora.


Fica sempre o convite para ler diretamente a obra. E tirar suas próprias conclusões.


Eu senti as representações de família e criança na obra muito perto do tradicional, do que é esperado da maioria, como o pai que não sabe ajeitar o cabelo da filha, o pai ciumento, a menina que quer ser princesa e usar maquiagem e perfume de adulto, a criança que não gosta de sopa…Eu tenho uma ideia – vindo também da minha experiência – de que não é sempre assim. E gosto muito quando encontro representações de família e crianças que vão além desse modelo. Acho que a literatura é um lugar para isso também, para dar voz a novas vozes.  Eu, em alguns momentos da leitura, fiquei incomodada, pois esperava que um livro que trata de uma família que tem dois pais poderia ousar um pouco mais nas representações do homem e da criança.


Por outro lado, sei que a intenção pode ter sido justamente o contrário. Mostrar uma família e uma criança como outras por aí e evidenciar, assim, que ser homossexual é normal. Não é nenhum bicho de sete cabeças ou algo de outro mundo. Nesse sentido, um ponto legal é o fato de não ter sido representado o estereótipo do homem homossexual. Papai Raul, por exemplo, na infância, brincava de brincadeiras “de menino” e nunca brincou de boneca. Ele também não sabe fazer penteados no cabelo da filha. Por esse lado  cabe pensar que a diversidade pressupõe a liberdade de ser inclusive de acordo com os padrões vigentes.


Olívia só é ela mesma, afinal. Assim como sua família.


(Obs: a leitura é mais recomendada para leitores autônomos, pois tem um pouquinho a mais de texto)



OBSERVAÇÃO 2


Mas teve uma coisa que realmente me incomodou. Olívia é uma menina negra, adotada pelos pais, que são brancos. Em um momento em que vai brincar de boneca com Papai Raul, o narrador diz que ela dá para o pai uma boneca de que gostava menos e que estava “descabelada”. Já para si, ela escolhe a boneca que achava mais bonita.


Acontece que isso é representado nas ilustrações com uma boneca ruiva para a “bonita”; e uma boneca de cabelos crespos – como os de Olívia – para a “descabelada” e “de que gostava menos”. Vejo isso como um descuido a que precisamos estar mais atentos, de forma que a literatura infantil seja um canal de representação do novo e da diversidade, e não da repetição de padrões estabelecidos.


Mas espero que vocês leiam e tirem suas próprias conclusões e impressões.


Eu vou continuar de olho em livros que representem a homoafetividade e a diversidade da vida.


E conto sempre por aqui.




[caption id="attachment_5418" align="aligncenter" width="731"]O caso da ilustração das bonecas O caso da ilustração das bonecas[/caption]

OLÍVIA TEM DOIS PAPAIS

Texto de Márcia Leite

Ilustrações de Taline Schubach

Editora Companhia das Letrinhas