Finais infelizes nas histórias infantis

20/08/2018

Entre os adultos mediadores de leitura, existem algumas opiniões a respeito do conteúdo das histórias oferecidas às crianças. Vamos distinguir aqui três delas, no que diz respeito à felicidade ou infelicidade de seus personagens.


Há aqueles que defendem histórias mais palatáveis, higienizadas, que mostrem apenas um lado mais sonhador e otimista em relação à vida.


Há outros que aceitam e/ou defendem histórias que passeiem pelos cantos mais obscuros da vida e da alma humana. Este grupo aceita a potência da ficção para aproximar a criança da complexidade da vida, o que inclui seus aspectos fluidos, mas também aqueles desafiadores. Só que, para esse ponto de vista, tudo (ou muita coisa vale) apenas no caso em que a ordem retorna no final da história, e os heróis, após um período de provação, estejam tranquilos ou até felizes.


E existe ainda um terceiro grupo, talvez consideravelmente menor, que topa terminar histórias ainda no ponto de dor, e deixar – personagens e leitores – com a ferida aberta.


A busca por histórias felizes – sejam no final ou em todo enredo – pode ser vista como uma tentativa de proteção das crianças, para que preservem uma visão mais ingênua em relação à vida. Quanto mais tarde souberem de seu lado cruel, melhor.


Só que a precariedade deste último argumento está no fato de negar a complexidade da própria criança (ao achar que sentimentos como tristeza, raiva, medo, e também vingança e egoísmo não pertencem ao universo infantil) e no fato de que hoje, na era da hiper mídia, é missão quase impossível resguardar a criança de entrar em contato com representações dessa complexidade humana. “O mundo como ele é” está nas ruas, na televisão, no cinema, nos games, na escola, em todo lugar, inclusive na literatura.


Pode acontecer de a literatura, com sua introspeção e modo peculiar de representação, afetar de maneira diferenciada e profunda aquele que lê. Mas isso não é necessariamente ruim. Em tempos onde a educação é entendida como a supressão de nosso lado sombrio, ter consciência sobre nossa complexidade pode ser um ganho enorme para o desenvolvimento.


Faltam habilidades emocionais em muitos adultos – percebe-se isso, por exemplo, nos índices de depressão, entre outros males psíquicos, que se tornaram comuns. Será que poderíamos fazer diferente se, desde cedo, tivéssemos coragem de ver a vida em sua inteireza?


Nosso intuito aqui não é dar a resposta, mas convidar mediadores a lerem obras que nos deixam com a ferida aberta. Por que sabe qual é o grande poder delas? Elas nos fazem sentir. E sentir também é outra ação negada em tempos como o nosso, com excesso de atividades, comidas e até mesmo remédios para “acalmar” as crianças. Essas obram tiram os amortecimentos, vão lá bem fundo dentro da gente, para nos fazer enxergar.


Então nosso convite é para que leiam e conversem com a gente. Será que seria bom avançar nesse terceiro grupo de histórias na mediação de leitura com crianças?


Vamos sugerir duas obras que nos impactaram para que possamos refletir juntxs.



ESPERANDO MAMÃE


[caption id="attachment_4728" align="aligncenter" width="799"]Esperando mamãe Esperando mamãe[/caption]

Nesta história coreana vemos um menininho que vai até a estação de bonde esperar por sua mãe. O clima trazido pelo texto é de tensão, pois não sabemos por que o menino está sozinho. A tensão se dá também em função da repetição de sua pergunta sobre onde está sua mãe aos vários “motoristas”, que em sua maioria o ignoram. As ilustrações tem um misto de afetividade e dureza. O menino pequenino e afetuoso se contrasta com a rispidez dos adultos e do inverno. Página a página, gostamos mais do menininho, e ficamos mais tristes porque sua mãe simplesmente não chega.




[caption id="attachment_4727" align="aligncenter" width="799"]“Fica em pé, parado, com seu nariz vermelhinho.” “Fica em pé, parado, com seu nariz vermelhinho.”[/caption]

Na última página, apenas com imagens, quase camuflados na paisagem, há um adulto com uma criança, e podemos talvez deduzir que se trate do menino com sua mãe. No entanto, não podemos afirmar com certeza. É bem difícil de ver esse detalhe. Nós aqui não vimos de primeira. E terminamos desamparados, assim como o menino.




[caption id="attachment_4726" align="aligncenter" width="799"]E a mamãe não chega E a mamãe não chega[/caption]

OS INVISÍVEIS


[caption id="attachment_4730" align="aligncenter" width="799"]Os invisíveis Os invisíveis[/caption]

Aqui, nessa história feita por brasileiros – Tino Freitos e Renato Moriconi, com maestria, aliás -, o tema é a invisibilidade social. Conhecemos um menino que tem a capacidade de ver os invisíveis. A ilustração nos mostra quem eles são: pessoas como mendigos e marabalistas de semáforo, sempre iluminados por um feixe de luz laranja que sai dos olhos do menino. No entanto, esse menino cresce. E o feixe de luz laranja acaba. E o livro acaba sem o feixe de luz voltar. Inclusive tudo fica escuro, inclusive as últimas páginas.




[caption id="attachment_4731" align="aligncenter" width="799"]O feixe laranja O feixe laranja[/caption]

Acontece no livro como na vida: muitos de nós perdemos o dom de ver os invisíveis, metidos em nosso egoísmo, em nossa luta por se dar bem na vida.




[caption id="attachment_4729" align="aligncenter" width="799"]O poder de ver os rejeitados socialmente O poder de ver os rejeitados socialmente[/caption]


Em nenhuma das duas histórias, somos amparados por um cenário mais otimista no final. Terminamos meio sem chão.


E qual o valor literário e emocional de “finais infelizes” como esses?


O intuito desse texto é refletir com vocês.


Vocês já conhecem essas obras? O que acham sobre o assunto? Tem alguma experiência para contar?


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