10 motivos por que vale (muito!) à pena reinar com Narizinho

10/10/2016

Monteiro Lobato é nosso clássico infantil. E o seu Sítio do Pica Pau Amarelo é um mundo reinado por crianças, onde o que tem valor é o sonho, a magia e a imaginação.


Ler sua obra é viver pelo livro a grande aventura de ser menina e menino.


Na semana das crianças, nada melhor, então, que mergulhar nesse universo que é pura infância, em toda sua liberdade e ousadia.


(*sobre as polêmicas em torno da obra de Lobato, dou uma dica no final desse texto*)


Aqui segue uma singela lista de 10 – dentre os vários – motivos pelos quais vale muito à pena ler “Reinações de Narizinho”:


1


Por toda a poesia – pelo texto ser cheio de pequenas surpresas e detalhes, não focado apenas na desenrolar do enredo e dos acontecimentos.


Como na descrição do salão no dia do casamento de Narizinho no Reino das Águas Claras:


“O salão parecia um céu bem aberto. Em vez de lâmpadas, viam-se pendurados do teto buquês de raios de sol colhidos pela manhã. Flores em quantidade, trazidas e arrumadas por beija-flores.”


img_20161008_170426674_hdr-01-799x599

2


Pelas asneirinhas de Emília, dando vazão à lógica livre infantil. (Sim, sem censura). E que às vezes tornam tudo tão simples, fácil, óbvio.


Quando Dona Benta diz que Pedrinho não tem história porque nunca saiu de casa, Emília diz:


“Essa é boa! Aquele livro de capa vermelha da sua estante também nunca saiu de casa e no entanto tem mais de dez histórias dentro”


 

3


Pela brincadeira com a linguagem, como o uso constante de onomatopeias.


Vale lembrar o episódio da música da jabuticabeira. Quando o pé de jabuticaba estava cheio, Narizinho ficava em cima da árvore comendo e Rabicó lá embaixo esperando os caroços:


“Cada vez que soava lá em cima um tloc! seguido de um pluf!, ouvia-se cá embaixo um nhoc! do leitão abocanhando qualquer coisa. E a música da jabuticabeira era assim: – tloc! pluf! nhoc! – tloc! pluf! nhoc!…”


img_20161008_164937082-01-799x599


 

4


Pela forma de lidar com os clássicos da literatura infantil, de forma inesperada e destemida – além da lógica adulta.


Você acha que é no lobo sombrio que Narizinho fica pensando quando se lembra da história de Chapeuzinho Vermelho?


Que lobo que nada, bom mesmo são os bolos que a menina carregava na sexta!


“- E eu só queria Capinha. Tenho tanta simpatia por essa menina…Aqueles bolos que ela costumava levar para a vovó que o lobo comeu – que vontade de comer um daqueles bolos….”


 

5


Pela liberdade que as crianças têm no sítio, pela oportunidade que têm de escolher e de exercer suas vontades.


Se o caminho para chegar ao Reino das Águas Claras está demorado e Pedrinho está com preguiça de “atravessar tanta areia”, o melhor é chegar logo. Então, que assim seja:


“-Chegue já, cocheiro, senão vai pelotada!…


O camarão cocheiro não discutiu. Puxou as rédeas e chegou e parou bem defronte do palácio real”


img_20161008_170014830_hdr-01-799x599

6


Pelo riso. Por fugir ao senso comum, nos surpreender e fazer rir:


Quando Visconde fica doente e o Doutor Carumujo chega para examiná-lo, sua conclusão é a de que Visconde está empanturrado de ciências empanturrantes:


“-Hum! O caso é dos mais graves. Tenho de operá-lo imediatamente. Sua Excelência está empanturrado de Álgebra e outras ciências empanturrantes.” 


 

7


Por vermos descortinar sempre o modo infantil de ver e lidar com o mundo, como a mania de personalizar e dar características humanas a tudo.


Um envelope e o vento viram o Senhor Envelope e o Senhor Vento. Qual será o melhor portador?


“Quem levou as cartas? Quem mais senão esses preciosos portadores chamados Envelopes?”


“Acho melhor fazer um convite geral e incumbir o Senhor Vento de ser o portador”.


img_20161008_163553161-01-799x599


8


Pela deselegância de Rabicó. E outras brincadeiras e atrevimentos de todos os personagens:


Para anunciar Cinderela, nada de Sapatinhos de Cristal. Rabicó abre a porta e diz:


“-Senhorita Cinderela, a princesa das botinas de vidro!”


9


Por as crianças serem tão autônomas e imaginativas.

As crianças do Sítio brincam sozinhas, passeiam sozinhas, e não sentem tédio (mesmo sem terem videogames e outros eletrônicos), porque têm toda a imaginação a seu dispor:


Narizinho, em um passeio sozinha,


“sentou-se na sua raiz, recostou a cabeça no tronco e cerrou os olhos, porque o mundo ficava três vezes mais bonito quando cerrava os olhos.”



10

Pelo jogo entre faz-de-conta e realidade, entre verdade e mentira, pelo qual nós leitores somos levados.


Ali é como se todos os mundos de faz-de-conta inventados pelas crianças virassem realidade:


“-Já não entendo esses meus netos. Fazem tais coisas que o sítio está virando livro de contos da Carochinha. Nunca sei quando falam de verdade ou de mentira.”


Agora, imagina se esses “faz-de-conta” pudessem mesmo virar realidade?


Pois ali no Sítio isso se dá.


Lá, as crianças reinam.

E essa reinação de Narizinho e de todas as crianças é o grande encanto da obra de Monteiro Lobato.

img_20161008_164136-01-945x599

*

Sim, por outro lado, há pontos difíceis de ler.


No caso de “Reinações de Narizinho”, principalmente aqueles momentos em que se desvelam as diferenciações e preconceitos por Tia Anastácia ser negra.


Sim, nós nos preocupamos com as crianças negras ao se verem representadas assim.


Sim, nós nos perguntamos se as crianças têm maturidade para ler essa obra e entender que se trata de uma ficção, de um certo tempo que não é mais o nosso – ou não deveria ser.


E, sim, nós como mediadores, podemos lhes dizer isso, caso elas não tenham essa maturidade.


Na verdade, nós, como mediadores, devemos dizer isso a elas.


Compartilho da visão de que, para obras infantis escritas em tempos remotos, que veiculam valores que não mais fazem sentido no momento atual, deve-se fazer uma contextualização.


Uma contextualização que deveria vir inclusive como prefácio nesses livros infantis. Mas que caso não venha nós podemos lhes contar com a voz. Contar de um tempo em que foi assim.


E também acreditar na inteligência da criança, para que perceba essa diferença entre os tempos. Acreditar e incentivar para que leia com espírito crítico, que não seja um leitor passivo, mas um leitor que ama e se indigna dentro da mesma obra.


Um leitor que veja inclusive a insensatez de certos fatos da narrativa.


Pois indignar-se é necessário.


E contextualizar é imprescindível e faz parte da formação do leitor.


O que não pode é deixar de lado esse mundo tão encantado com que Monteiro Lobato nos presenteou.


Enfim, não desistamos de Narizinho e suas reinações.